Armazenagem e Cia

A Vitória de Trump e o Agronegócio Brasileiro

Segue nossa análise preliminar sobre os impactos da Vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos EUA e os reflexos esperados para o agronegócio brasileiro:

Contrariando virtualmente todas as projeções dos institutos de pesquisas, Donald Trump venceu na madrugada desta quarta-feira (09/11), a eleição presidencial dos Estados Unidos, derrotando a democrata Hillary Clinton. Trump nunca ocupou um cargo público e o bilionário será a pessoa com menos experiência política a comandar a maior economia e o mais poderoso aparato militar do planeta. O Partido Republicano manteve a maioria na Câmara e no Senado, o que deixará a legenda no comando dos poderes Executivo e Legislativo – é a primeira vez que isso ocorre desde 1928. Mas não está claro como será a relação do presidente eleito com integrantes da elite de seu próprio partido, muitos dos quais se opuseram à sua candidatura.

 

A vitória de Trump foi impulsionada por forças nacionalistas semelhantes às que levaram à vitória do Brexit, outro evento que colocou em xeque a capacidade dos institutos de pesquisas. Seus ataques à globalização e ao comércio internacional mobilizaram trabalhadores brancos norte-americanos sem educação superior, que impuseram uma derrota histórica a Hillary em locais que votaram no Partido Democrata nas últimas eleições presidenciais. Trump venceu na Pensilvânia, em Michigan, Ohio e Iowa, que integram o chamado “cinturão da ferrugem”, locais que sofreram com o processo de desindustrialização do país nas últimas décadas. Desde o início da campanha eleitoral, Trump apresentou uma visão dos Estados Unidos como um país decadente, invadido por imigrantes e refugiados, mergulhado na violência e humilhado no exterior por aliados e adversários.

 

O bilionário cultivou a imagem de um líder forte, representante da “lei e da ordem”, com poder de resolver sozinho os problemas do país. Sob o slogan “Tornar a América Grande de Novo”, o bilionário prometeu deportar 11 milhões de imigrantes que vivem de maneira ilegal no país e construir um muro na fronteira com o México. Trump também adotou um discurso populista de rejeição à globalização e a tratados de livre comércio e disse que trará empregos industriais de volta aos Estados Unidos com a punição de empresas que transfiram suas linhas de montagem a outros países. Quando candidato, defendeu o uso da tortura contra suspeitos de terrorismo e chegou a propor a suspensão da entrada nos Estados Unidos de praticantes da religião muçulmana.

 

Com ataques frequentes ao politicamente correto, Trump distribuiu ofensas de maneira generalizada durante a campanha, iniciada com a acusação de que os mexicanos que entram no país são estupradores e assassinos e encerrada pouco depois da divulgação de um vídeo no qual diz que pode fazer o que quiser com as mulheres por ser famoso. Há muita especulação em torno do que Trump poderá fazer, mas seu primeiro discurso após o resultado já teve um tom mais ameno, o que deixa todo mundo em compasso de espera de suas primeiras ações. Os norte-americanos podem ter decidido por “um experimento”, tamanho o desagrado gerado pela rival democrata.

 

DÓLAR E MERCADO FINANCEIRO

No Brasil, o dólar finalizou a quarta-feira (09/11) em R$ 3,214, valorização de 1,32% na comparação com o dia anterior. A reação dos mercados financeiros globais à inesperada vitória do candidato republicano Donald Trump na disputa presidencial dos Estados Unidos não foi tão ruim como se temia. O tom de pacificação usado por Trump em seu discurso de vitória ajudou a amenizar os receios dos investidores, assim como a percepção de que o Congresso, mesmo dominado pelos republicanos, pode limitar seu poder de estrago.

 

Os efeitos da eleição sobre a política monetária norte-americana ainda não estão claros. Uma corrente de economistas diz que, pelo menos no curto prazo, o Fed pode ter de manter uma postura acomodatícia para compensar a queda nos mercados. Outra aponta que a política fiscal expansionista do republicano pode levar o banco central a acelerar a normalização dos juros no médio prazo. O fato é que o rumo do Fed deve influenciar as decisões do BC brasileiro. Uma pressão no câmbio pode deixar o BC preocupado, mas essa não é a variável central, porque não deve ser forte o suficiente para amargar uma convergência da inflação para a meta.

 

A economia doméstica segue sem pressões de demanda, o que favorece a continuidade dos cortes na Selic. Há preocupação com o efeito do câmbio na inflação para 2017 e 2018. Se o Real se depreciar fortemente, o BC terá mais cautela para cortar juros. No curto prazo, as propostas de Trump não devem afetar diretamente a política monetária brasileira. Mas não podemos desprezar os efeitos a médio e longo prazos.

 

A eleição de Trump chacoalha o cenário global das relações políticas e econômicas, mas afeta menos o Brasil. A situação do Brasil melhorou recentemente, após Michel Temer assumir o governo e implementar um plano de ajuste fiscal, mas o cenário econômico não é fácil. O Brasil ainda tem de lidar com dificuldades econômicas enormes, com o déficit no orçamento, déficit em conta corrente. O essencial agora é continuar buscando as reformas e colocar a trajetória da dívida pública nos trilhos.

 

COMMODITIES AGRÍCOLAS

Algumas commodities agrícolas nas bolsas internacionais de Nova York, Londres e Chicago recuaram no pregão desta quarta-feira. O movimento baixista foi reflexo da vitória do republicano Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, que despertou uma aversão ao risco nos traders. As maiores perdas ocorreram nos contratos do açúcar em Nova York (ICE Futures US) e do café em Londres (ICE Futures Europe).

 

Soja, milho e trigo também fecharam em baixa na Bolsa de Chicago, mas muito mais em função dos dados baixista do relatório de oferta e demanda mensal de novembro, divulgado pelo Departamento de Agriculturas dos Estados Unidos nesta quarta-feira (09/11). Em um primeiro momento, e os mercados futuros já mostram isso, o cenário é baixista para as commodities agrícolas no curto prazo por causa do discurso protecionista de Trump e da saída de investidores para apostas mais sólidas e seguras.

 

Mas as quedas são limitadas pelo discurso moderado feito pelo empresário assim que foi confirmada a vitória, com a maioria dos delegados que vai conduzi-lo à Casa Branca. O impacto inicial da vitória de Trump deve ser suplantado, no médio prazo, pela lei da oferta e da procura. Os Estados Unidos precisam consumir produtos agrícolas e o Brasil é um dos poucos a ter a oferta necessária para o crescimento da demanda daquele país e do restante do mundo. 

 

trump-e-o-agronegocio-brasileiro-cogo

Carlos Cogo

AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

A vitória do republicano Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos deve ter pouca influência para o agronegócio brasileiro, embora algumas de suas propostas, anunciadas durante a campanha, pudessem ter reflexos positivos para esse setor da economia nacional. A percepção é de que o impacto para o Brasil deve ser pequeno, ao contrário do México, que pode ser bastante prejudicado. Eventuais barreiras protecionistas levantadas por Trump fariam com que países compradores se voltassem ao Brasil em busca de alimentos e outras commodities.

 

Por exemplo, pode-se abrir o mercado do México para o Brasil. A China, por exemplo, continuará tendo suas necessidades, e se não puder contar com os Estados Unidos, pode importar mais do Brasil. Em princípio, grãos, especialmente soja, e carnes seriam os produtos mais beneficiados por um aumento do apetite externo pelas commodities brasileiras. Outros produtos, menores em termos de mercado, como suco de laranja e tabaco, também poderiam ser mais demandados.

 

O acesso da carne bovina brasileira ao mercado norte-americano, conquistado recentemente, pode ficar mais difícil. Há um risco de entraves ao acesso do produto brasileiro ao mercado norte-americano. Nesse setor, houve apoio massivo dos Estados agrícolas a Trump. Pode haver um movimento de proteger o mercado da carne bovina norte-americana, o que afetaria o Brasil. O Brasil fechou acordo bilateral para exportação de carne bovina in natura para os Estados Unidos em agosto e desde então já embarcou volumes para o país.

 

O setor de proteínas brasileiro deve manter o espaço conquistado no mercado global, por causa do reconhecimento mundial do status sanitário do País. Não haverá mudanças significativas neste segmento. Brasil e Estados Unidos estão entre os principais produtores e exportadores mundiais de carnes bovina, de frango e suína. Na avicultura, os Estados Unidos são os maiores produtores e o Brasil é o maior exportador do mundo. O espaço conquistado pelo Brasil recentemente nos países da Ásia continuará sólido. Além disso, a aproximação da Rússia poderá reatar negociações com os Estados Unidos, mas, mesmo assim, o Brasil deve manter o seu espaço para a carne de aves e suínos.

 

Ainda é cedo para se avaliar como o republicado trabalhará em relação à Farm Bill, a política agrícola dos Estados Unidos, que será revisada em 2018. Algumas das ideias de Trump podem ser positivas para o agronegócio brasileiro. Trump afirma ser contrário a Parceria Trans-Pacífico (TPP em inglês), que envolve grandes importadores de alimentos, como países asiáticos.

 

O mercado norte-americano já é suficientemente protecionista para os produtos agrícolas brasileiros, com altas taxas e tarifas. A engrenagem norte-americana é tão gigantesca que nem Trump seria capaz de mudá-la, muito menos de “revogar” a lei que liga oferta alta à demanda crescente. Apesar do poder a ele concedido, o futuro presidente não conseguirá controlar o clima – o senhor da agropecuária. Companhias agroindustriais com operações no Brasil e nos Estados Unidos, como a indústria do suco de laranja, até poderiam se assustar com o discurso do futuro presidente de que vai rever acordos comerciais e dará prioridade às indústrias locais. Mas a avaliação inicial é de que Trump, como um empresário e como norte-americano, defende o respeito aos contratos.

 

AGRONEGÓCIO NOS ESTADOS UNIDOS

Durante a campanha, Trump defendeu políticas de protecionismo e jurou rever acordos como o Nafta e a Parceria Trans-Pacífico (TPP). Entretanto, a vitória de Trump para a Presidência dos Estados Unidos não deve afetar de forma significativa o potencial exportador de soja e milho dos Estados Unidos, principais concorrentes do Brasil no mercado internacional. Houve um apoio fundamental de importantes Estados produtores de grãos norte-americanos à eleição do candidato republicano. A postura protecionista sinalizada por Trump durante a campanha é contrária à tradição republicana, mas ainda há vários fatores por avaliar, como a relação com o Congresso dos Estados Unidos. Trump vence a eleição com um Senado de maioria republicana, porém uma maioria que não o apoiou.

 

Para o mercado de soja, o efeito da vitória de Trump tende a ser restrito. Circulavam no mercado rumores de que a China estaria comprando mais soja dos Estados Unidos antes da eleição norte-americana por causa da possibilidade de deterioração das relações comerciais entre os dois países. Contudo, dificilmente Trump adotará posições que prejudicaram as perspectivas de exportação das áreas agrícolas que ajudaram a elegê-lo. Os Estados Unidos são o segundo maior exportador de soja atrás do Brasil. A China não vai parar de consumir soja e os Estados Unidos são um player relevante nesse mercado. Trump ganhou a eleição com apoio massivo dos Estados agrícolas e não deve tomar medidas que prejudicariam o eleitor dele.

 

Quanto ao milho, a expectativa é semelhante, já que os Estados Unidos são o principal exportador da commodity. Trump conquistou boa parte do seu apoio nos Estados do Meio Oeste que ajudaram a eleger Obama em 2008 e 2012, como Iowa, Ohio e Wisconsin, e que desta vez garantiram a vitória de Trump. Dos Estados que compõem a região, Hillary só venceu em Minnesota e Illinois.

 

Fontes: Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica, Agência Estado e Reuters.

Por Carlos Cogo - www.carloscogo.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *