Kepler em foco

Agronegócio passa ao largo da turbulência e foca na produção.

São Paulo, 16/06/2017 – Os bons resultados da safra recorde de grãos no Brasil têm ofuscado os eventos recentes no cenário político-econômico nacional aos olhos das empresas do agronegócio. Elas avaliam que as últimas turbulências pouco ou nada afetarão seus planos de negócio e de investimentos, não somente por causa da produção de 234 milhões de toneladas mas porque o dólar mais forte que o real garante aos produtores maior remuneração e isso se reflete nos investimentos feitos no campo. As companhias também citam a demanda internacional firme e, principalmente, o anúncio do Plano Agrícola e Pecuário 2017/2018, na semana passada, que trouxe ao setor previsibilidade do montante e do custo dos recursos que serão disponibilizados neste ano.

 

“É claro que observamos com cautela o cenário político-econômico, esse “vai não vai” do governo”, diz o vice-presidente da New Holland Agriculture para a América Latina, Rafael Miotto. “Mas a gente observa muito mais outros fatores: níveis de consumo de proteína, de alimentos e do complexo soja para alimentação humana e animal.” Em entrevista ao Broadcast Agro, ele acrescenta ser imprescindível acompanhar ainda o mercado internacional “para entender a lógica da oferta e demanda”. A agricultura consegue ter um pouco de descolamento (do cenário político e econômico nacional) por causa da oferta e demanda internacional”, afirmou, lembrando que as exportações do setor contrabalançaram o menor consumo interno de certos produtos, como laticínios e carnes.

 

Na avaliação de Miotto, a turbulência política acabou sendo superada pela perspectiva de retomada das vendas de máquinas agrícolas, apontada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Em maio, as vendas internas chegaram a 4,1 mil unidades, alta de 16,4% na comparação com igual período de 2016 e de 17,6% frente a abril. Ele destaca também a expectativa quanto ao anúncio do Plano Safra 2017/18 que, de maneira geral, foi bem recebido, apesar das críticas à redução das taxas de juros aquém do desejado. “Estávamos bem preocupados porque existia a possibilidade de o governo protelar a divulgação. Se isso acontecesse, toda a cadeia do agronegócio teria problemas, haveria dificuldades no custeio da safra e de capital de giro dos agricultores”.

 

Olivier Colas, vice-presidente da Kepler Weber, líder no mercado nacional de silos para armazenagem de grãos, destaca que o plano deixou o setor mais animado. “O cenário para 2017, com inflação mais baixa, sinalizava que o Brasil estava saindo do fundo do poço e isso se refletiu em maior demanda por parte dos clientes. Só notamos que o pessoal estava postergando as decisões de compra porque aguardavam o anúncio do Plano Safra, que deu muito destaque à armazenagem”, disse. O plano deve ofertar R$ 1,6 bilhão para o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), acima dos R$ 1,4 bilhão do ano passado, com juros de 6,5% ao ano – abaixo dos 8,5% praticados na última safra. Colas não descarta que turbulências desencadeadas pelas delações dos sócios da JBS possam influenciar decisões dos clientes sobre investimento, mas nada foi observado até agora. “O número de pedidos de orçamento aumentou significativamente em maio”, contou.

 

Os projetos traçados pela CNH Industrial para este ano serão mantidos. Sem mencionar números, o vice-presidente da New Holland Agriculture – um dos braços da CNH Industrial – declarou que os investimentos da empresa no Brasil em 2017 vão superar os realizados em 2016, contemplando desde “renovação de produtos, oferta de novas máquinas e adequações industriais e de engenharia, até expansão de linhas de montagem”. No ano passado, a CNH Industrial investiu em todas as regiões do mundo mais de US$ 860 milhões em pesquisa e desenvolvimento, dos quais aproximadamente 10% foram destinados à América Latina. “Para 2018, ainda não estamos falando números oficiais, mas esperamos que o mercado de máquinas seja maior e o investimento proporcionalmente maior também”, disse o executivo.

 

A Kepler Weber também mantém suas perspectivas de mercado. Depois de amargar uma queda de 32,7% na receita líquida em 2016 (R$ 475,3 milhões), Colas acredita que o cenário de 2017 é muito mais positivo e propício a investimentos por clientes da companhia. É esperado um aumento das vendas de silos sustentado tanto pela boa condição de capitalização de produtores e empresas, como pela necessidade de ampliar a capacidade de armazenamento do País. A expectativa é de vendas de silos equivalentes a uma capacidade para 2 milhões de toneladas (50% do mercado), acima das cerca de 1,6 milhão de toneladas do ano passado, ainda que muito abaixo das quase 48 milhões de toneladas de grãos adicionais produzidas na safra 2016/17 em relação a 2015/16.

 

Já os investimentos não serão ampliados. Devem se manter nos R$ 20 milhões do ano passado porque a empresa ainda tem capacidade ociosa. “Temos mais capacidade de produção do que o mercado demanda atualmente”, disse Colas. O cenário de 2018, na visão do executivo, parece ainda melhor que o de 2017, com taxas de juros menores, crescimento da economia e mais uma grande safra de grãos, que tende a estimular produtores, tradings e cooperativas a investirem mais em armazenagem. A alemã Bayer não tem previsão de novas unidades fabris da empresa no Brasil para 2017, mas diz que as turbulências desencadeadas após a delação premiada dos sócios da JBS não alteraram ou postergaram qualquer plano de investimento. “De maneira alguma. A empresa está no País há mais de 120 anos e já passou por diversas crises políticas e econômicas; isso não fez com que diminuíssemos nossa crença no Brasil e especialmente no agronegócio. A Bayer segue com seus planos”, afirmou Gerhard Bohne, diretor de operações da divisão Crop Science da Bayer no Brasil. Segundo Bohne, a empresa continuará “investindo em pesquisa e desenvolvimento de novas soluções para o campo”.

 

A norte-americana Trimble, que trabalha com tecnologias de posicionamento para setores diversos, entre eles a agricultura, tem sentido maior impacto na demanda por projetos em outras áreas, como infraestrutura e construção civil, do que no agronegócio. “Atuamos em cinco áreas de negócios bastantes diversas (agricultura, construção, recursos naturais, transporte e logística e soluções geoespaciais), e a área agrícola é a que menos tem sido afetada por essas crises todas. Ela é muito mais impactada por questões climáticas do que políticas”, afirmou Carlos Alberto Nogueira, country manager da Trimble no Brasil. Nogueira estima que os investimentos da empresa no País neste ano serão, “sem dúvida”, superiores aos de 2016 e devem crescer entre 20% e 30%, puxados pelos bons resultados dos produtores com a safra recorde de grãos.

 

Empresas do setor de fertilizantes não devem, de forma semelhante, fazer alterações em seus planos de investimento, segundo o consultor na área de adubos da INTL FCStone, Marcelo Mello. “Das empresas com quem tive contato recentemente, não ouvi nada sobre atrasos em investimentos. Os planos estão mantidos e se há investimento a ser feito, será feito”, afirmou. Para ele, o cenário de longo prazo tanto para empresas já presentes no mercado brasileiro como para as que querem entrar, a exemplo de investidores chineses, é extremamente positivo. “O horizonte de longo prazo para a agricultura no Brasil é o máximo. Tem um potencial de crescimento enorme considerando áreas cultiváveis, a terra é boa, mais barata que em outros países e que fica ainda mais barata à medida que o dólar sobe”, disse Mello. A valorização da moeda americana ante o real é benéfica também para os produtores rurais, que vendem seus produtos em dólar, são mais bem remunerados em real e, com isso, ficam mais capitalizados para investir em insumos, como os fertilizantes.

 

As vantagens da alta do dólar para o setor foram reforçadas pelo sócio diretor da consultoria Agrosecurity, Fernando Pimentel. “Um dos efeitos visíveis logo após o câmbio ter chegado a R$ 3,30-3,40 foi o aceleramento das vendas de soja. O que pode ser crise para alguns para o agro vira oportunidade”, afirmou. Mesmo com o setor pecuário ainda sofrendo os efeitos da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal e que investiga irregularidades nos certificados de segurança em frigoríficos, e das delações dos sócios da JBS, de forma geral as empresas do agronegócio não mudaram seus planos. Tanto Pimentel como Mello apontam que o movimento de consolidação de empresas de distribuição de insumos, originação de grãos (aquisição, por empresas, de grãos de terceiros), a exemplo do que vem sendo observado no último ano, continuará ocorrendo. “Vamos ver mais operações de fusão e aquisição nesses segmentos, sem dúvida”, disse Pimentel.

 

Pimentel reforça ainda que multinacionais do agronegócio com atuação no Brasil também não alteraram seus planos de investimento em decorrência das turbulências recentes. “Com relação aos investimentos de multinacionais que eu ouvi que iriam ocorrer, não houve alteração de planos. O que é certo é que a demanda por alimentos segue crescendo, a população segue crescendo e o Brasil é o país do agronegócio. Qualquer empresa que quiser atuar no setor e crescer, tem que crescer aqui”, declarou o sócio da Agrosecurity.

 

Matéria de: Clarice Couto – clarice.couto@estadao.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *